Relato do meu parto natural em Curitiba

Eu escrevi o meu relato de parto quando a Anne completou 15 dias de vida, mas eu nunca postei em nenhum lugar. Hoje, 6 de fevereiro de 2022, ela está completando 2 anos. Sinceramente eu não sei porque eu demorei tanto, mas eu sentia que nunca estava completo suficiente. Então vou reler o que eu escrevi e tentar explicar pra vocês como foi o dia mais transformador da minha vida.

 

15 dias de vida da Anne e agora eu acho que me sinto um pouco mais pronta para contar sobre o meu trabalho de parto. Quando eu passo por algo muito intenso eu levo uns dias para digerir tudo e conseguir falar (acho que todo mundo é assim, né?), foi assim no nosso casamento. E com certeza o parto foi o momento mais intenso da minha vida.


Mas antes de começar a narrar a história eu gostaria de fazer algumas observações. A primeira delas é que eu escolhi ter um parto normal. Já contei no meu Instagram como foi a nossa experiência pré-natal e como eu me preparei para este momento escolhendo a obstetra que mais se parecia comigo (Dani Werka), fazendo fisioterapia pélvica com epi-nô (Ju Becker) e tirando todas as dúvidas com a enfermeira obstétrica (Equipe 9 Luas) que acompanharia o parto.


Mas o meu parto começou muito antes disso. Quando eu tinha uns 14 anos eu fui diagnosticada com asma. A primeira coisa que a médica me disse foi que eu jamais poderia fumar, namorar alguém que fuma, e também jamais poderia parir. Sinceramente, eu nunca fui atrás pra saber a verdade sobre isso, eu só tomei isso como verdade e segui minha vida. Nessa época eu já tinha o sonho de ser mãe um dia. Mais futuramente eu ainda ouviria que eu era pequena demais, magra demais, frágil demais para parir.


Mas felizmente eu tive muitas experiências com gestantes e bebês ao longo da minha vida. Não demorou pra que eu percebesse que não havia nada de errado comigo. Eu poderia ao menos, tentar. E assim que eu descobri a gestação, eu decidi que tentaria um parto normal. Então fui atrás de uma das equipes mais renomadas de Curitiba e mais uma vez quebrei a cara. A médica que me atendeu foi extremamente maldosa, sugerindo que eu não tinha a opção de escolher parir com o plantonista e se negando fazer meu pré-natal sem a disponibilidade. Saí da consulta chorando (não sou de chorar), mas hoje vejo que tive muita sorte, porque ao contar a história no meu Instagram, muitas pessoas me indicaram a doutora Dani Werka, que na primeira consulta já nos deixou com a certeza de que ela era a escolha certa pra nós. Nunca vou esquecer da nossa primeira consulta com ela. Dessa vez saí chorando, mas foi de alívio.


Eu escolhi tentar o parto normal porque queria entrar em trabalho de parto e porque conheço os benefícios. Ao mesmo tempo estava totalmente ciente dos indicativos de cesárea e de como ela poderia salvar nossas vidas, se necessário. Cheguei a fazer o plano de parto indicando que não queria episiotomia, epidural, analgesia, mas no fim nem entreguei porque confiei 100% na médica que escolhi.


Estou relatando isso porque durante a gestação escutei pessoas dizendo que tinham medo dessa minha expectativa do parto normal porque se ele não fosse possível é muito difícil lidar com a frustração. E eu imagino. Eu queria uma recuperação mais rápida, queria favorecer a produção de leite, queria facilitar meu vínculo com o bebê, queria contato pele a pele ao nascer, queria que ela fosse um bebê saudável e feliz. Mas não é isso que toda mãe quer? Independente da escolha e da via de parto, o que todo mundo busca é o melhor caminho entre a mãe e o bebê para trazê-lo ao mundo.


No dia 4 de fevereiro a queridíssima enfermeira obstetra Raquel foi na nossa casa para fazermos a despedida da barriga e no dia 5 eu entrei em trabalho de parto. O foco é o trabalho de parto, mas eu queria deixar registrado o quanto esse ritual da despedida da barriga foi delicioso e especial.


RELATO DO PARTO - 5 de fevereiro de 2020 (38 semanas e 5 dias)

Acordei com a sensação de que nosso momento estava chegando. Tinha algumas cólicas e algumas contrações, raramente as duas ao mesmo tempo. Eu comecei com cólicas há quase 2 semanas antes, mas dessa vez eu sentia que estava chegando. Lembro de ter dito que a titia Larissa (irmã do Andrius) tinha acertado a data. O Andrius perguntou se não seria na sexta-feira, um dia depois, e eu disse que não. Avisei a enfermeira e a obstetra e fui descansar. Até então a sensação era de que nunca chegaria a hora, mas às 22 horas do dia 5 eu comecei a ter contrações com dor. A Anne se mexia muito. Durante as contrações eu respirava demoradamente lembrando das recomendações da fisioterapeuta, mas nos intervalos eu ainda conseguia conversar. Comecei a atualizar os dindos pelo Whatsapp e eu dizia que enquanto eu conseguia rir das piadas deles eu não ia pro hospital. Eu até consegui dormir enquanto o Andrius cronometrava as contrações e falava com a médica.


Por volta das 2h da madrugada eu já estava tendo contrações de 4 em 4 minutos e que duravam mais de 40 segundos. Às 3:45h a Dani falou para irmos para a maternidade checar a dilatação. Lembro de estar no elevador dizendo: ainda é cedo demais, vamos voltar pra casa. Lembro também que estávamos no Uber, eu, o Andrius e a minha mãe e começou a tocar Sweet Child O Mine e eu fiquei emocionada. Cardiotoco. 1 centímetro de dilatação. Uma opção era caminhar por umas 2 horas, mas a Raquel (a enfermeira obstetra) disse que não era necessário, que era para irmos para casa descansar o máximo que desse pois precisaríamos de muita energia.


Assim fizemos. Tomei um banho demorado que aliviou um pouco e voltei pra cama. Durante a madrugada eu comi algumas frutas e tomei Gatorade e muita água. Eu estava razoavelmente descansada e bem hidratada. Em algum momento da manhã eu acordei com a sensação de estar fazendo xixi. Eu tinha altas expectativas em fazer a piada do dr. Wesley e dizer que a minha bolsa não era uma Pierre Cardin porque havia estourado, mas no momento eu só cutuquei o Andrius e mandei o tradicional: amor, a bolsa estourou. É muito doido passar por isso pela primeira vez porque por mais que eu estivesse totalmente informada, na prática a gente nunca sabe se tá tudo bem.


Mandamos uma mensagem para a Raquel, que veio aqui pra casa às 8:40h e eu já estava com 6cm de dilatação. Fomos para a maternidade logo em seguida e lembro de ver o rosto da doutora Dani Werka e me sentir aliviada. Estávamos indo para o quarto pré-parto, mas eu precisei parar para vomitar. Cheguei lá com 7cm e às 10h eu já estava com 8cm. Apesar de eu estar com a sensação de que já estava lá há muitas horas a evolução até aí foi bem rápida.


Um dor melhores momentos durante o trabalho de parto foi sentar na bola embaixo do chuveiro. O Andrius ficou lá sentado comigo, fazendo massagem e me segurando. Acho que eu levei umas 2:30 horas desde que cheguei na maternidade para entrar no expulsivo. Daí o bicho começou a pegar.


RELATO DO PARTO - 6 de fevereiro

Eu entrei no expulsivo por volta do meio dia. Sentia uma dor insuportável e uma certa insegurança, mas eu olhava pra cara de serenidade da dra. Dani e ela me dizia que estava tudo certo e que eu estava indo super bem. Eu olhei para o relógio dela que marcava 13:13h e lembrei que comecei a ter contrações às 22h. Pensava em como as outras mulheres conseguiam, porque eu achava que não ia conseguir. Mas eu olhava pra Raquel e ela me devolvia um sorriso. A cada contração ela dizia: respira longo. Ela respirava e eu tentava segui-la. Às vezes eu conseguia, outras eu mal a ouvia. Eu percebia as contrações ficando mais espaçadas e mais longas. Enquanto elas aconteciam meu corpo era inundado por dor, mas também por hormônios que me davam uma força que eu não sabia que eu tinha. Eu puxava o lençol amarrado na barra como se fosse dele que a Anne ia sair. Eu apertava os dedos, ora da Dani, ora da Raquel. Eu mordia os dedos do Andrius. E quando eu olhava no relógio já era 14h. Além de mim e do Andrius, estavam só as duas no quarto. Eles me ajudaram a achar outras posições, mas sentada eu tinha mais controle do meu corpo. E quando as contrações iam embora eu sentia meu corpo se inundar de alívio e sonolência. Eu dormia, revirava os olhos e ficava na mais profunda paz.



Quando chegamos nas 3 horas de expulsivo eu senti o Andrius chorar e perguntar: porque ela não nasce? E a Dani continuou com o rosto sereno dizendo que estava tudo bem, que estava muito perto. Lembro de ter visto a Dani vestir as luvas, mas a Anne ainda demorou. Foram quase 4 horas de expulsivo. Eu pensava em Deus, mas não conseguia ter pensamentos concretos, então eu pensava na Anne. Meu coração dizia: vem filha, mamãe tá te esperando. E eu me esforçava ao máximo pra ajudá-la vir ao mundo. Então elas pediram para o Andrius ir ver o cabelinho dela que já estava aparecendo. Bateram foto e me mostraram. Eu coloquei a mão, meio sem vontade e meio sem forças. E essa expectativa de que estava muito perto me deu energia para uma força mais prolongada.


De repente eu senti. O tal círculo de fogo estava acontecendo. Comparada a toda dor que eu senti, aquela não era nada. Era a anunciação. E eu disse: agora ela está vindo. Mais uma contração. A última. E então eu escutei a voz de Deus em um chorinho da minha filha. Meu Deus, obrigada. Obrigada.


Minha filhinha veio direto para os meus braços, com um pouco de vérnix, limpinha e cheirosinha. Presa ao cordão pulsante e procurando o peito. Eu dizia: seja bem-vinda filha, meu Deus, você é linda, você é perfeita. Atrás de mim eu escutava o Andrius chorando. Na minha frente eu escutava a médica e a enfermeira rindo e dizendo: por isso que ela demorou, estava curiosa pra ver o mundo.


A Anne teve uma apresentação do occipício posterior (OP), ou seja, ela encaixou na minha pelve com a testa, sem estar com o pescoço abaixado. Isso dificulta bastante o trabalho de parto porque a cabeça do bebê precisa de mais espaço para passar, mas em todos os momentos ela estava com os batimentos cardíacos monitorados e ótimos. E por fim, tivemos nosso glorioso parto 100% natural, sem analgesia e sem o vácuo extrator.


Hoje eu olho para o meu parto e para os outros partos que fotografei e me sinto 100% conectada com o presente de ter tido essa experiência. Foi uma experiência louca e linda, que só veio fazer sentido total pra mim agora, 2 anos depois.


Andrius, Raquel e Dani foram exatamente tudo. Eles me ajudaram a chegar até aqui.


Obstetra: Dani Werka

Enfermeira Obstetra: Raquel Colaço

Maternidade: Santa Brigida



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